A ÁFRICA DOS MEUS SONHOS

Não trouxe a África nem
nas minhas bagagens! Nenhuma lembrancinha de aeroporto.
Pra que lembranças se não vou esquecer? Esculturas artesanais que desenham lindas mulheres
negras vivendo o cotidiano de carregar lenhas eu já as tenho em casa faz tempo
por iniciativa da minha esposa. Temos negras, japonesas, espanholitas,
nordestinas, holandesas, indígenas... Souvenires de amor transcultural.
Entretanto, nessa primeira madrugada uma torrente
de sonhos transpassou toda a noite em muitas memórias e ecos.
Sonhos. Sonhos muitos.
Sons estranhos. Misturados. Faces várias de crianças tantas.
Trouxe a África comigo.
Trouxe as ocultas personagens desse intercâmbio. Trouxe os rostinhos dos que
ficaram no meio do caminho enquanto prosseguíamos. Sinceramente não sirvo para
salvar ninguém por estatística. Ou dou um jeito logo em tudo, ou é melhor nem
ter começado!
Nos meus sonhos, voltei
a um vilarejo miserável em Oron,
miserável cidade de Akwa Ibom State.

Devolvemos a essa vila
um jovenzinho-bruxo todo quebrado pelo “vodu cristão”! Ele foi levado ao campo
pelo irmão mais velho e quando ia ser imolado com um facão, foi arrancado da
morte pelos homens do Chief Mr.
Medekon, um dos maiores e mais respeitados anciãos da cidade. Conduzido ao
orfanato, coube-nos investigar a causa de sua bruxificação e conversar com seus
pais a respeito.

Mr. Medekon e sua
equipe nos levaram ao vilarejo de origem. Lugar escuro, casebres de argila,
aspecto tribal, sem ruas, mantido resfriado pelas palmeiras que se levantam ao
redor. Parecia que todos já nos esperavam, inclusive a “vítima”, Emilia, a
criança a quem o garoto, supostamente, impôs feitiços: uma menininha com cara
de dor, com uns 5 aninhos, que carrega uma corcunda no meio das costas, entre
as clavículas. É um edema que desvia sua coluna e aperta de dor seu pequeno
peito. O chief, casado com uma
enfermeira inglesa aposentada, suspeita de uma má-formação vertebral. Tomei em
meu colo a criança. Ela não anda. Dói. As crianças a carregam. Sua mãe olhava
esperançosa para mim. Mal sabia que eu mal sei. Toquei, apalpei, circunscrevi,
pensei, consultei o arsenal mínimo de informações que a semiologia me deu
durante esses anos que trabalho com neurologistas e minha sugestão diz respeito
a uma tumoração que está esmagando o que tem ao redor de si. Sua origem só
exames de ressonância poderão mostrar. Sua extensão aparecerá em tomografias
com cortes precisos das imagens. Sua malignidade, só via-biópsia. Sua
possibilidade de cura, só um neurocirurgião pode determinar; pois caso seja
maligno, precisa saber se é invasivo – metido entre vértebras ou peritônio. E
só será operável em função da nobreza da região no qual se está implantado. Se
for ortopédico, há um longo caminho entre intervenções cirúrgicas e
fisioterapias.

O chief, apoiado sobre sua bengala-cedro, nos chamou de canto e falou
baixinho para que as dezenas de moradores que nos cercavam não ouvissem: “Amigos, se vocês conseguirem curar essa
moça por vias médicas que não temos aqui, daí com um único exemplo, nós derrubaremos
a crença mitológica de meu povo ignorante! Façam isso por nós, por favor!”
Ele usou de uma lógica
ingênua e ao mesmo tempo racional: Ora,
se a causa de muitas crianças serem expulsas dessa vila (bastando para tanto
confessarem que são bruxos) está relacionada ao incurável desvio ortopédico da
menininha, a cura dela cessaria o fluxo de acusações e suspeitas que viviam
recaindo sobre as demais crianças moradoras do local.

Ali mesmo, sem mesas de
escritório e mapas estratégicos, acreditamos que nada nos seria impossível,
mesmo sendo tão desafiador! Lembrei-me que Jesus mandou curar os enfermos e
expulsar os demônios dos vilarejos e cidades que entrássemos, anunciando-lhes
que o Reino é chegado! – É foi o que decidimos fazer!
Pedi à Diana –
nigeriana da Stepping Stones Nigeria
que estava secretariando nossa visita a essa cidade – que anotasse os caminhos:
1) Procurar um médico clínico que providencie um
hospital para exames de imagens e diagnóstico, e encontrar tal médico e tais
exames nem que fosse seja lá aonde!
2) Com o diagnóstico médico, ter detalhes do
tratamento a ser instituído e sua morbidade;
3) Se for tratável, levar a menina Emilia para a
Europa através de um grande levante de fundos junto aos amigos do “Caminho”
pelo mundo, não deixando de crer na possibilidade de que uma equipe de anjos a
opere gratuitamente, considerando fatores de extrema pobreza e gravidade do
caso;
A tempo, ainda estávamos
lá dias depois, quando a Diana encontrou um hospital-escola no centro do país
que disse que faria exames imaginológicos a um valor que só saberíamos na hora
da consulta (Na Nigéria, não tem SUS!). Deixamos com ela o dinheiro para o
transporte da família até o hospital e vamos aguardar os resultados.
Após o “exame clínico”
da criança, Mr. Medekon nos pediu mais um favor: Falar com aquele que ele
considera o maior culpado pela persistência dessa relação “doença de uma
criança – caça de outra”.
Pedi para chamar o
pastor, então.
O homem apareceu quase
imediatamente entre nós, de motinha. Suava muito debaixo de um terno que não
tinha nada a ver com aquele monte de crianças peladas e adultos maltrapilhos.
Sua igrejinha não era
ali perto. Não. Era exatamente onde estávamos! O chão no qual nos sentamos era
o cimentado da igreja e nós nem sabíamos. E a igreja era mais um casebre dentre
tantos ali, uma Assembléia de Deus abandonada pela Assembléia de Deus como a
maioria das Assembléias de Deus que assembleiam-se por lá.
O Leonardo foi direto
ao assunto: “Pastor Moises, qual sua
culpa nisso tudo? O que você ensina a essa comunidade? Por que, apesar de sua
influência cristã aqui, eles ainda crêem na bruxificação de crianças?”
O pastor estava ali,
exposto a todos, cercado de dezenas de famílias, e negando sobre o olhar
raivoso do chief, que tenha participação em tudo. Para nós não havia surpresa
na negativa pastoral... Foi assim a Missão inteira. Diante de nós, todo mundo
nega tudo ao mesmo tempo em que pede clemência!
Aproveitamos seu estado
de culpa, pedimos o auditório da sua igreja p´ra levar para uma reunião
comunitária todos os que nos cercavam. Ele com toda prontidão abriu suas portas
e num único assobio, convocou a vila.

As crianças e os
adolescentes foram os primeiros a tomar assento. Estavam ansiosos e
esforçando-se por captar o que se passa na cabeça dos adultos. Os pequeninos
participaram da assembléia como quem buscar entender seus direitos à vida. Dava
pena de vê-los tentando interpretar nossas brigas, discussões, apelos, réplicas,
desafios, argumentações...

O Leo pregava em inglês
contra a estigmatização infantil ensinando como Jesus tratava as crianças. O
pastor Moises o traduzia para o dialeto local, especialmente preocupado em que
os menores entendessem. Tal gesto foi me conquistando...
Ao final da preleção
(aos berros, como tudo tem que ser ali), o Leonardo perguntou quem era
contrário ao retorno do menininho quase imolado ao seio de sua casa. Pai e mãe
aguardavam com expectativa a manifestação ou não de alguém.
Daí um adolescente de
uns 16 anos se levanta, pede a palavra e discursa em inglês com incrível
habilidade oratória: “Que garantia vocês
nos dão de que o menino-bruxo não fará mais mal a minha vila?”
- “E de onde você tirou tamanha convicção de que
ele é bruxo?” – disse o
Leonardo.
- “Ele confessou que é bruxo! E quando um possesso
confessa que o é, está confirmado seu estado!”
- “E eu sou o Barack Obama! Você acredita na minha
confissão?”
- “Não! Eu não conheço você, mas sei que você não é
o Barack Obama!”
- “E você conhece a criança ou o diabo dela para
crer no que ela diz a seu próprio respeito após ter sido tão pressionada? Sobre
pressão uma criança confessa o que dela pedirem!”
Começou então o de
sempre: Eles brigam em Ibibio, o dialeto local. E uma gritaria ibibiana tomou o
lugar, uns agredindo os outros, todos ao mesmo tempo, feito reunião de
condomínio!
Eu só assistia enquanto
fitava o belo jovem que a nós se opunha! Senti nele uma mistura de sinceridade
com a presunção típica de quem pensa que nasceu sabendo coisas com as quais
peitava o Leonardo e o Chief. Daí, pedi para falar. E o fiz, gritando e andando
pelo pequeno recinto cinza:
“Meu amigo, quando os “white men” escreveram sobre
o assunto, o teu pai nem tinha nascido. O idiota do homem branco que determinou
que endemoninhados confessam que o são em nome de Jesus nem podia imaginar que
vocês aplicariam isso à crianças! Agora,
seus pastores pioram as besteiras que os meus escreveram e você acredita nisso
como se fosse uma grande revelação??? Defenda suas crianças, rapaz! O próximo
acusado pode ser seu irmão, pode ser VOCÊ! Pare de assistir filmes ridículos!
Pare de acreditar em Helen Ukpabio! Creia em Jesus! E se você é o futuro mentor
dessa vila, está na hora de aprender o Evangelho de Verdade, que deixaremos em
suas mãos, para ensinar a todos!
Ele sabe que falávamos
com autoridade, mas com amor e respeito por ele! Ao final, ele acatou com muita
sinceridade nossas palavras e creu nelas de todo o coração! O Espírito me
revelou que ele presidirá os “do Caminho” naquele lugar, como sábio guardião da
fé.
Também sei que Deus vai
curar Emilia, a pequena corcundinha. Orei debruçado sobre a cabeça dela como
por um filho meu... Pedindo que o Pai a livre do Mal; e sobre o mal em suas
costas passei minha própria saliva, misturada ao seu suor, untando-a assim com
um bálsamo estranho até a mim mesmo... Preparando-a para a cura, seja pela
medicina do Milagre ou pelo milagre da Medicina!
No dia seguinte, nossa
equipe voltou até lá com material de ensino, com Evangelhos e literatura
infantil. Encontraram resistência de outros homens, ausentes no dia anterior e
motivados somente pelo espírito de inveja e pela embriaguez que os tomava. Eles
recolheram alguns da reunião “no tapa”, mas a própria comunidade tratou de
desprezá-los! Mães, pais e filhos queriam a Boa Nova do Evangelho e não os
temeram. Os pais do menino pediram que assim que a “poeira abaixe” e as
oposições se silenciem possamos tirar seu filho do orfanato e levá-lo de volta
para casa. Por ora, estamos cuidando de seu bracinho quebrado.
No pequeno vilarejo em
Oron, a Paz deu o ar de Sua Graça!

Ao nos despedir o chief me disse profundo: “Sei que nada faz sentido algum para vocês
aqui, mas, por favor, não desistam do meu povo! Por favor!”
É esse clamor que me
ecoou pela primeira madrugada pós-africana.
Essa não é África do
meu Sonho, mas é a África dos meus sonhos.
Por favor, não desistam
desse povo!
Por favor!
Marcelo
Santos/SP
A POEIRA NUNCA ABAIXA